terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O transtorno da máquina inseto


- Tríade city 3 -

“Dear City,

Enquanto o Burroughs está lá fora, procurando o pico das dez, resolvi lhe escrever. Ou melhor, me escrever. Sei que a relação entre nós três não anda nada bem.

Ah minha cara, a vida não tem sido boa dentro de você. E nem dentro de mim. É tec tec o dia todo e aquele cara alucinando nas minhas patas; os pensamentos, que nem são meus, correm pelas folhas e caem no chão numa mistura nojenta de sangue e lixo.

Quando menos se espera ele volta dos seus braços. E nem quero imaginar o que você tem feito com o cara durante todos esses anos, parece-me cada dia mais acabado. Sai atrás de algo que nunca encontra, procura luz na noite e esconde-se no limbo do esquecimento de dia. Mas sempre retorna a você, atira-se nas suas ruas imundas, voando em torno do néon feito vaga-lume e caindo de cara no concreto quando encontra a realidade.

Depois retorna ao tec tec tec, e aquelas pessoas estranhas passam por suas veias, dedos, pelas minhas patas, ganham vida numa dimensão distinta. Seres sem nome, sem lembrança. Posso imaginar o que eles fizeram nas suas entranhas para receber tamanho troco. No final o seu esgoto é a nossa única saída, desculpe-nos o transtorno.

Att.”

Nenhum comentário: